segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Revolução de Abril I


Victória Abril
Pertenço a uma geração - a que nasceu em setentas - que no liceu ainda entendia haver dois tipos de mulheres: Aquelas com que namorávamos, nos casariamos e presumiamos virem ser mães dos nossos filhos; As amantes a quem tudo estava vedado à excepção do prazer absoluto, da devassidão e da amoralidade.
Isso veio a diluir-se.
Algumas mulheres, porém, parecem impor-nos, no âmbito dos seus contornos, a vocação da sua alma e do seu corpo. E nada podemos contra essa natureza que nos torce e verga.
Victória Abril nasceu para amante.
Não precisa de abrir as pernas, de se despir - embora o faça com uma frequencia desusada e, por ventura da forma mais natural que o cinema conhece - não precisa de nada para desnaturar um homem que tenha tomates voltados para fêmeas.
Na cara está tudo o que é: a cama que volve em qualquer sitio, os lençois revoltos, amassados e de cheiro a corpos, os dias sem sol nos quartos fechados, alheios a tudo quanto exclua os corpos fundidos e alma desgraçada e o cérebro inerte. As horas sem comer, as tonturas impenitentes, as dores de baixo ventre, os cigarros acumulados dos intervalos do sexo, os corpos exaustos e todavia suplicantes até das entranhas e os fluidos vertidos na vertigem louca...
Até ao dia, incerto, em que num arrimo de semi-consciencia, algum dos dois se decida a interromper por um par de horas essa cadência, e resolva salvar os despojos.
IL - 17,5
PS - Conservador como sou, portanto amante e apreciador das belas mulheres, este é o meu Abril e a unica revolução a que entusiastica e irresponsávelmente teria aderido, assim tivesse tido o ensejo.

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